O Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) reafirmou nesta quarta-feira (29), durante audiência pública promovida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em Porto Alegre (RS), sua posição contrária ao modelo de concessão da Malha Sul ferroviária apresentado pelo governo federal. Para os quatro estados que integram o Conselho — Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — a proposta de segmentação da malha em três corredores independentes compromete a integração logística da Região Sul, enfraquece a sustentabilidade da concessão e não atende ao interesse público.
A audiência, realizada na Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), reuniu representantes dos governos estaduais, do setor produtivo e da comunidade técnica para discutir a nova modelagem da concessão ferroviária, cuja atual operação se encerra em fevereiro de 2027.
O secretário de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul, Clóvis Magalhães, apresentou manifestação conjunta em defesa da revisão do projeto. Em seu pronunciamento, destacou que a proposta foi construída sem a participação efetiva dos governos estaduais e sem que fossem disponibilizados, de forma suficiente, os estudos técnico-econômicos que embasam a segmentação da Malha Sul. "O modelo apresentado não atende ao interesse público, não respeita plenamente o pacto federativo e não representa a melhor alternativa para o desenvolvimento logístico do Sul do Brasil", afirmou.
Segundo o documento apresentado pelo Codesul, a concessão em discussão produzirá impactos diretos sobre a economia, a competitividade e a integração regional pelos próximos 30 anos, razão pela qual os estados defendem um processo construído com maior transparência, diálogo federativo e ampla participação técnica.
Segmentação preocupa estados
Um dos principais pontos de preocupação é a divisão da Malha Sul em três concessões distintas — Corredor Paraná-Santa Catarina, Corredor Mercosul e Corredor Rio Grande.
O coordenador do Grupo de Trabalho Ferrovias do Codesul, Beto Martins, alertou que o modelo pode aprofundar as desigualdades entre os trechos da malha ferroviária. "A fragmentação vai deixar o Rio Grande do Sul e Santa Catarina sem ferrovia", afirmou. Segundo ele, enquanto o trecho paranaense apresenta elevada rentabilidade operacional, os segmentos localizados em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul exigem investimentos significativos para sua recuperação e expansão, aumentando o risco de baixa atratividade para futuros investidores.
Na avaliação do Codesul, essa configuração compromete a viabilidade econômica da concessão, reduz a capacidade de integração logística da região e pode perpetuar o abandono de importantes trechos ferroviários.
Necessidade de revisão da modelagem
Durante a audiência, Clóvis Magalhães também defendeu que a ANTT amplie o debate antes da definição do novo modelo. "Não se decide 30 anos em três meses. Não se decide 30 anos em três dias", afirmou.
Os estados argumentam que a atual modelagem desconsidera mercados estratégicos de elevada produção agrícola e industrial, especialmente no interior do Rio Grande do Sul, reduzindo o potencial de geração de cargas e comprometendo a sustentabilidade econômica da ferrovia.
Estados defendem diálogo e transparência
Outro ponto enfatizado pelos representantes do Codesul foi a necessidade de maior transparência no processo de concessão.
Os governos estaduais sustentam que os estudos econômico-financeiros que fundamentam a proposta não foram disponibilizados de forma suficiente para permitir uma avaliação técnica independente, dificultando contribuições qualificadas à consulta pública.
Na manifestação apresentada à ANTT, os estados solicitaram a reabertura do diálogo técnico, o compartilhamento integral dos estudos utilizados na modelagem e a revisão da segmentação da Malha Sul antes da conclusão do processo.
Segundo o documento, uma revisão da proposta resultará em uma concessão mais robusta, atrativa e sustentável, reduzindo riscos futuros e fortalecendo a integração logística da Região Sul.
Proposta alternativa
O Codesul também reiterou que não é contrário à realização de uma nova concessão ferroviária, mas ao modelo atualmente apresentado.
Como parte dessa estratégia, o Conselho e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) contrataram um estudo técnico especializado para elaborar uma proposta alternativa para a chamada Malha Sul Ampliada, contemplando os quatro estados integrantes do Codesul.
A iniciativa buscará uma modelagem capaz de recuperar a infraestrutura ferroviária, ampliar a capacidade logística, integrar os principais corredores de produção e garantir maior competitividade para a economia da Região Sul.
A terceira e última audiência está marcada para sexta-feira (31), em Florianópolis, a partir das 09 horas, na sede da Fiesc.
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